Translate

domingo, 31 de maio de 2020





Quando completei quarenta anos, achei que a velhice estava chegando…Ela não veio.
Quando fiz cinquenta, ela, a velhice, me pareceu chegar, com força total… Como num piscar de olhos, ela foi embora e eu vivi uma década ágil, dinâmica, agitada e nada tediosa.
Agora, faço sessenta e um anos, idade encarada como o início da terceira parte dos três terços de uma vida, a chamada terceira idade, que rima com “idoso”, que rima com “velhice”… Olho ao redor, procuro onde ela está (a velhice) e, juro, não a encontro!
O que mudou, então?
Mudei, mudaram as circunstâncias, as ferramentas, mas, sobretudo, mudaram as prioridades. O silêncio é mais importante. O humor é mais importante. A saúde é mais importante. A aceitação é mais importante. Entretanto, apesar de retirados alguns pedaços, eu me vejo caminhando para esse prometido encontro com a
velhice, inteira.
Certos limites impostos pelos desgastes do tempo não podem ter soberania sobre a minha vontade. Assim, atendendo aos apelos dos joelhos, troco, de bom grado, os saltos altíssimos e finos por plataformas médias. Meus olhos cansados perderam em nitidez o que meu olhar sobre as coisas ganhou em amplitude e alcance.
Faz tempo que parei de inventar razões para viver. Estamos sempre inventando justificativas para mil e uma coisas que queremos ou não queremos, mas viver não tem justificativas, ponto. Também não há meios termos. Há acordos.
Lá pelo final dos quarenta anos, eu fiz acordos com a vida e comigo mesma… Vocês sabem, acordos são tratos, são compromissos e têm que ser levados a sério.
Eu me comprometi a viver apaziguada – com o tempo, com as perdas, com as mudanças, com as diferenças, com os limites, comigo mesma – e a curtir cada pedacinho do muito que tenho – das pessoas que permaneceram, da família construída, da saúde que ainda me resta, do amor que chegou para mim.
Outro trato, que é também um desafio.
Tenho um profundo orgulho dos meus tropeços, pois foram eles que me ensinaram e tive a sorte de reconhecer muitos erros como degraus de crescimento, ainda a tempo de acertar meu passo e de aprumar a minha coluna. Como eu teria tudo isso se não tivesse vivido tanto?

Nenhum comentário: